A era dos descobrimentos foi o resultado desse
movimento de libertação. Dilatava o mundo de que dois
terços ainda não eram conhecidos e exaltava a vida física,
como mais tarde a Revolução Francesa foi a exaltação da
vida intelectual, arrogante e independente. Às navegações
comerciais dos venezianos, genoveses e catalães seguiam se
outras mais audaciosas, abrindo novos céus e terras. As
lendas, ainda romanas, das sonhadas ilhas do ouro e da
prata, mudando de lugar como fogos-fátuos, atraíam
sempre para mais longe outros povos marítimos.
“Andando más más si sabe”, dizia Colombo. Os livros de
Marco Polo e Mandeville despertavam no ânimo dos
aventureiros novas ambições de conquista, o amor ao
mistério das regiões desconhecidas, a curiosidade do
maravilhoso, o reaparecimento do espírito das cruzadas.
Recomeçava na história do mundo o misterioso impulso
que de séculos em séculos põe em movimento as massas
humanas, após os longos repousos em que as civilizações
nascem, se desenvolvem e morrem. Mais uma vez, neste
movimento de fluxo e refluxo, a inquietação migratória
tomaria o aspecto de imperialismo econômico e
comercial. Em procura de ouro, que já escasseava,
italianos, portugueses, espanhóis, holandeses, ingleses,
franceses, lançavam-se à porfía pelos novos caminhos
marítimos. O Oriente esgotara as reservas européias de
metais preciosos e pedrarias. Para refazer a riqueza
perdida voltavam-se os povos do Ocidente para os
mesmos tesouros e minas da Ásia e da África. Por toda a
parte se buscava o metal onipotente.
Ao voltar Colombo de sua primeira viagem, a Europa, ansiosa, pela voz de Pedro Martyr d’Anghiera, indagou logo se trouxera ouro. Essa febre invadia todos os espíritos, alvoroçados pelo deslumbramento das descobertas. Os homens, a quem o Renascimento revelara o prazer de viver, lançavam-se com a energia da época aos mais arriscados empreendimentos na esperança de fortuna rápida. A conquista sanguinária da América Espanhola é dominada por essa paixão frenética. Rio da Prata, Rio do Ouro, Castela do Ouro, Costa Rica, Porto Rico, assim se batizavam as terras que os conquistadores desvendavam ao mundo atônito. “Io no vine aqui para cultivar la tierra como um labriego, sino para buscar oro”, escrevia Cortez. Nas narrativas de Oviedo, em duas páginas e meia aparecém 45 vezes as palavras oro e dorado, numa insistência de maníaco. E ao saudar o Gama em Calicut, grita-lhe, alviçareiro, o Monçaide: “Boa ventura! Boa ventura! Muitos rubis, muitas esmeraldas! Estaes na terra da especiaria, da pedraria e da maior riqueza do mundo!”. Era por toda a parte a mesma fascinação diante das riquezas reais ou fabulosas que prometiam as terras novas. Era a preocupação, confessada ou disfarçada, da aura mortífera fames, de que falava Pedro Martyr. Ouro. Ouro. Ouro.
Ao voltar Colombo de sua primeira viagem, a Europa, ansiosa, pela voz de Pedro Martyr d’Anghiera, indagou logo se trouxera ouro. Essa febre invadia todos os espíritos, alvoroçados pelo deslumbramento das descobertas. Os homens, a quem o Renascimento revelara o prazer de viver, lançavam-se com a energia da época aos mais arriscados empreendimentos na esperança de fortuna rápida. A conquista sanguinária da América Espanhola é dominada por essa paixão frenética. Rio da Prata, Rio do Ouro, Castela do Ouro, Costa Rica, Porto Rico, assim se batizavam as terras que os conquistadores desvendavam ao mundo atônito. “Io no vine aqui para cultivar la tierra como um labriego, sino para buscar oro”, escrevia Cortez. Nas narrativas de Oviedo, em duas páginas e meia aparecém 45 vezes as palavras oro e dorado, numa insistência de maníaco. E ao saudar o Gama em Calicut, grita-lhe, alviçareiro, o Monçaide: “Boa ventura! Boa ventura! Muitos rubis, muitas esmeraldas! Estaes na terra da especiaria, da pedraria e da maior riqueza do mundo!”. Era por toda a parte a mesma fascinação diante das riquezas reais ou fabulosas que prometiam as terras novas. Era a preocupação, confessada ou disfarçada, da aura mortífera fames, de que falava Pedro Martyr. Ouro. Ouro. Ouro.
Paulo Prado (Retrato do Brasil, 1928 [1981:18-20)
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